Doenças transmitidas por carrapatos em cães: erliquiose e babesiose na prática clínica
Poucas afecções aparecem com tanta frequência no dia a dia da clínica de cães quanto a doença do carrapato. Transmitidas principalmente pelo carrapato marrom (Rhipicephalus sanguineus), a erliquiose (Ehrlichia canis) e a babesiose (Babesia spp.) compartilham vetor, apresentações clínicas que se sobrepõem e, com frequência, ocorrem como coinfecção. Para o médico veterinário, dominar suas fases, o raciocínio diagnóstico e as opções terapêuticas é parte essencial da rotina.
Dois agentes, um vetor
A erliquiose monocítica canina é causada pela bactéria intracelular Ehrlichia canis, que infecta principalmente monócitos. A babesiose é provocada por protozoários do gênero Babesia, que parasitam as hemácias e levam à sua destruição. Como ambos os agentes circulam no mesmo carrapato, é comum encontrar coinfecção — situação que tende a tornar o quadro mais grave e o diagnóstico menos óbvio.
As fases da erliquiose
A erliquiose costuma ser descrita em três fases, e reconhecê-las orienta tanto a investigação quanto o prognóstico.
- Fase aguda: surge semanas após a infecção. Predominam apatia, febre, anorexia, linfadenomegalia e esplenomegalia. A trombocitopenia é um achado laboratorial marcante já nessa etapa.
- Fase subclínica: o animal pode parecer recuperado, sem sinais clínicos evidentes, enquanto o agente persiste no organismo. Muitos cães permanecem assim por longos períodos.
- Fase crônica: a mais temida. Pode cursar com pancitopenia, hipoplasia de medula óssea, anemia importante, sangramentos (epistaxe, petéquias) e quadros multissistêmicos de difícil manejo.
A babesiose, por sua vez, costuma manifestar-se de forma mais aguda, com anemia hemolítica, mucosas pálidas ou ictéricas, febre, fraqueza e, em casos graves, hemoglobinúria.
Sinais clínicos que devem acender o alerta
Na anamnese e no exame físico, alguns achados aumentam a suspeita: histórico de infestação por carrapatos, apatia, febre, perda de peso, mucosas pálidas, linfonodos aumentados e qualquer manifestação de sangramento. Laboratorialmente, trombocitopenia e anemia são pilares da suspeita do complexo. Vale lembrar que a ausência de carrapatos no momento da consulta não exclui o diagnóstico — a infecção pode ter ocorrido semanas antes.
Raciocínio diagnóstico
O diagnóstico combina clínica, laboratório e métodos específicos:
- Esfregaço sanguíneo: pode revelar mórulas de Ehrlichia dentro de monócitos ou formas de Babesia no interior das hemácias. É barato e rápido, mas tem sensibilidade limitada — um esfregaço negativo não descarta a doença.
- Sorologia: detecta anticorpos e ajuda na confirmação, sobretudo na erliquiose; deve ser interpretada considerando a fase da doença e a possibilidade de exposição prévia.
- PCR: identifica o material genético do agente, com boa sensibilidade e especificidade, sendo útil para confirmar e diferenciar espécies.
O hemograma é indispensável e frequentemente o primeiro a sugerir o complexo, ao evidenciar trombocitopenia, anemia ou pancitopenia.
Tratamento
Para a erliquiose, a doxiciclina permanece como antimicrobiano de escolha, administrada por período prolongado conforme avaliação clínica. Na babesiose, empregam-se antiparasitários específicos contra o protozoário. Em ambos, o suporte é decisivo: hidratação, manejo da anemia e, em casos selecionados de anemia grave, considerar transfusão sanguínea. O acompanhamento laboratorial seriado — em especial a recuperação da contagem de plaquetas e do hematócrito — é o que confirma a resposta terapêutica.
Prevenção: o vetor é o alvo
Como tudo começa no carrapato, o controle do vetor é a medida mais eficaz. Orientar o responsável sobre o uso regular de antiparasitários de ação carrapaticida, o manejo ambiental e a inspeção frequente do animal reduz drasticamente o risco. A remoção precoce do carrapato também diminui a chance de transmissão. A prevenção vale mais do que o tratamento.
Conclusão
Erliquiose e babesiose continuam sendo protagonistas na clínica de cães no Brasil. O sucesso depende de reconhecer os sinais clínicos cedo, interpretar corretamente o hemograma e os exames específicos, instituir o tratamento adequado e — sobretudo — não perder de vista a evolução do paciente ao longo das semanas. É justamente nesse acompanhamento, com registro clínico organizado e acessível, que se constrói o desfecho favorável.



