Bulário
Doxiciclina
Nomes comerciais:Doxifin Tabs, Doxitabs, Doxitec, Doxitrat, Doxiven, Doxinew, Doxymax Pet, Doxy, Bioxin, Vibramicina
Antimicrobiano da classe das tetraciclinas, com boa atividade contra agentes intracelulares e alguns patógenos respiratórios. Em cães e gatos, é usada sobretudo para ehrlichiose/anaplasmose, leptospirose canina e infecções por Chlamydia felis, Mycoplasma spp. e Bordetella bronchiseptica.
Posologia
Cães
| Via | Dose | Frequência | Indicação |
|---|---|---|---|
| 5 a 10 mg/kg | a cada 12 ou 24 horas | Infecções por bactérias suscetíveis (faixa geral) VO Administrar 1 hora antes ou 2 horas depois da alimentação: alimentos e antiácidos reduzem a absorção das tetraciclinas. IV Reservada ao paciente que não recebe via oral. | |
| 10 mg/kg | a cada 24 h28 dias | Ehrlichiose/anaplasmose Esquema recomendado por diretriz CAPC; cursos mais curtos podem falhar em eliminar a infecção. | |
| 5 mg/kg | a cada 12 h14 dias | Leptospirose Indicada para depuração do organismo dos túbulos renais. |
Gatos
| Via | Dose | Frequência | Indicação |
|---|---|---|---|
| 5 a 10 mg/kg | a cada 12 ou 24 horas | Infecções por bactérias suscetíveis (faixa geral) VO Em gatos, dar ao menos 10 mL de água logo após o comprimido. Doxiciclina seca no esôfago causa esofagite e estenose. IV Reservada ao paciente que não recebe via oral. | |
| 10 mg/kg | a cada 24 h28 dias | Chlamydia felis Estudo experimental mostrou que 28 dias são necessários para eliminação consistente; administrar com água ou alimento após a dose. | |
| 5 mg/kg | a cada 12 h42 dias | Doença respiratória superior associada a Chlamydia felis ou Mycoplasma spp. Esquema estudado em ensaio clínico; administrar com água ou alimento após a dose. | |
| 10 mg/kg | a cada 24 h28 dias | Mycoplasma haemofelis Pode reduzir carga bacteriana e sinais clínicos, mas nem sempre elimina a infecção; monitorar por PCR quando disponível. |
Fontes das doses: Consolidado da referência de mercado veterinário brasileira (Viana, 2014) · Literatura veterinária citada nas fontes desta página
Calculadora de dose por peso
Confira sempre a bula do produto e o peso aferido. O cálculo apenas multiplica a dose publicada nesta página pelo peso informado — a decisão clínica é do médico-veterinário.
Apresentações no Brasil
A doxiciclina é dos antibacterianos com mais opções veterinárias registradas no país.
Entre as marcas há Doxifin Tabs (Ourofino), Doxitabs (Biovet), Doxitec (Syntec), Doxitrat (Agener União), Doxiven (Dechra), Doxinew (World Veterinária), Doxymax Pet (UCBVET), Doxy 100 e Doxy 400 (Cepav), Bioxin (Biofarm), Doxi-Top (Chemitec), Doxi Vansil (Vansil) e a linha Vetnil, em comprimido e em solução injetável.
As concentrações em comprimido vão de 20 a 300 mg, e há ainda solução oral a 5 mg/mL e injetável a 20 mg/mL. Entre as apresentações humanas usadas na clínica está a Vibramicina.
A lista completa, uma linha por apresentação, está no bloco de apresentações acima.
Indicações
A doxiciclina é uma tetraciclina de uso sistêmico com papel importante na clínica de cães e gatos quando há suspeita ou confirmação de agentes sensíveis, sobretudo bactérias intracelulares. Em cães, há suporte consistente para seu uso em ehrlichiose e anaplasmose, com regime de 10 mg/kg por via oral a cada 24 h por 28 dias. Para leptospirose canina, o papel mais bem estabelecido é a eliminação da leptospirúria, com 5 mg/kg por via oral a cada 12 h por 14 dias.
Em gatos, as indicações mais documentadas incluem infecções por Chlamydia felis, Mycoplasma spp. associados à doença respiratória superior, Mycoplasma haemofelis e infecção respiratória por Bordetella bronchiseptica. Para C. felis, estudos experimentais mostraram que cursos curtos reduzem sinais clínicos e carga bacteriana, mas não eliminam de forma confiável a infecção; por isso, o esquema com melhor respaldo é 10 mg/kg por via oral a cada 24 h por 28 dias. Em ensaio clínico com gatos com doença respiratória superior associada a C. felis ou Mycoplasma spp., foi utilizado 5 mg/kg por via oral a cada 12 h por 42 dias. Para Mycoplasma haemofelis, há suporte para 10 mg/kg por via oral a cada 24 h por até 28 dias, embora a eliminação microbiológica nem sempre ocorra.
Mecanismo de ação
A doxiciclina inibe a síntese proteica bacteriana por ligação à subunidade 30S do ribossomo. O efeito é predominantemente bacteriostático e costuma ser mais útil contra microrganismos suscetíveis com localização intracelular, incluindo agentes de hemoparasitoses bacterianas e alguns patógenos respiratórios felinos.
Contraindicações
Não deve ser usada em animais jovens: a doxiciclina afeta a formação dos ossos e altera de forma permanente a coloração dos dentes.
Em pacientes com insuficiência renal ou com problemas hepáticos, usar com cautela.
Durante a gestação e a lactação está contraindicada, pelo mesmo motivo: promove descoloração e displasia dentária e retarda o crescimento ósseo do filhote.
Efeitos adversos
O efeito adverso que mais importa na prática felina não é sistêmico, é mecânico: o comprimido de doxiciclina que para no esôfago do gato causa esofagite e pode evoluir para estenose. Por isso a regra é dar ao menos 10 mL de água, ou um pouco de alimento, logo após cada dose.
As tetraciclinas causam irritação tecidual, e daí derivam necrose no local de aplicação e fototoxicidade. Hepatotoxicidade por degeneração parenquimatosa também está descrita.
A nefrotoxicidade é efeito de classe das tetraciclinas, e a doxiciclina é justamente a exceção — o que a torna a escolha da classe no paciente renal. Ainda assim, evitar a associação com anestesia inalatória por metoxiflurano, pela possibilidade de insuficiência renal aguda.
Em animais jovens, descoloração dentária e inibição da calcificação óssea. Como todo antibiótico de amplo espectro, pode levar a supra-infecções por patógenos não suscetíveis, como fungos e leveduras.
Em superdosagem ou uso prolongado, a ligação das tetraciclinas ao cálcio pode provocar arritmias, além de necrose hepática e renal.
Interações medicamentosas
Como outras tetraciclinas, a doxiciclina pode ter a absorção oral reduzida por quelação com cátions divalentes ou trivalentes. Na rotina, isso importa principalmente com antiácidos e produtos que contenham cálcio, magnésio ou ferro, além de dietas ou suplementos minerais administrados junto da dose.
Em cães, há evidência farmacocinética específica de que sucralfato em suspensão administrado concomitantemente reduz de forma importante a exposição sistêmica à doxiciclina; quando o sucralfato foi oferecido 2 horas após a doxiciclina, essa interação deixou de ser relevante. Portanto, quando a associação for necessária, convém espaçar a administração.
Observações clínicas
A faixa geral da referência de mercado brasileira é de 5 a 10 mg/kg, por via oral ou intravenosa, a cada 12 ou 24 horas, para cães e gatos. Os esquemas específicos da tabela — erliquiose, leptospirose, clamidiose e micoplasmose felina — vêm da literatura clínica e são mais longos do que a faixa geral sugere: o que decide o sucesso nessas doenças costuma ser a duração, não a dose.
Duas regras de administração mudam o resultado e não aparecem em nenhum número: administrar 1 hora antes ou 2 horas depois da alimentação, porque alimentos e antiácidos reduzem a absorção das tetraciclinas; e, no gato, dar água logo após o comprimido.
O receituário aqui é o de antimicrobiano, com retenção da receita na farmácia, e não o de controle especial. A doxiciclina não consta nas listas da Portaria SVS/MS 344/1998 — a própria seção de controle desta página registra isso. Referências de mercado que trazem "controle especial" nesse campo estão descrevendo o enquadramento do produto de uso humano, não o instrumento que o médico-veterinário emite.
Em gatos, a recomendação prática mais importante é sempre administrar a formulação oral seguida de água ou pequena quantidade de alimento. Essa medida busca reduzir o contato prolongado do comprimido/cápsula com a mucosa esofágica e, portanto, o risco de esofagite e estenose.
Na ehrlichiose canina, cursos inferiores a 28 dias têm maior risco de falha microbiológica ou recaída; por isso, o esquema de 10 mg/kg por via oral a cada 24 h por 28 dias é o que tem melhor sustentação nas fontes consultadas. Na leptospirose, a doxiciclina não substitui o manejo de suporte do paciente agudo; seu papel clássico é completar a terapia para remover o agente dos túbulos renais, usando 5 mg/kg por via oral a cada 12 h por 14 dias.
Em clamidiose felina, os dados disponíveis indicam que 7, 14 e, em alguns casos, 21 dias podem melhorar sinais, mas não erradicar a infecção; por isso, quando se usa o esquema de 10 mg/kg por via oral a cada 24 h por 28 dias, a expectativa é maior chance de eliminação do agente. Para hemoplasmose felina, a resposta clínica pode ocorrer mesmo sem depuração completa, então a interpretação do sucesso terapêutico deve considerar hematócrito, sinais clínicos e, quando possível, PCR de seguimento.
Por fim, a doxiciclina é um antimicrobiano importante para patógenos intracelulares e respiratórios específicos, mas não deve ser usada empiricamente como “cobertura ampla” sem hipótese diagnóstica plausível. A escolha deve ser guiada pelo quadro clínico, epidemiologia, testes diagnósticos e princípios de uso racional de antimicrobianos.
Fontes
- — Companion Animal Parasite Council: Ehrlichia spp. and Anaplasma spp., Companion Animal Parasite Council
- — 2010 ACVIM small animal consensus statement on leptospirosis: diagnosis, epidemiology, treatment, and prevention, PubMed
- — Use of quantitative real-time PCR to monitor the response of Chlamydophila felis infection to doxycycline treatment, PubMed
- — Efficacy of pradofloxacin in cats with feline upper respiratory tract disease due to Chlamydophila felis or Mycoplasma infections, PubMed
- — Consecutive antibiotic treatment with doxycycline and marbofloxacin clears bacteremia in Mycoplasma haemofelis-infected cats, PubMed
- — Bordetella bronchiseptica infection in cats. ABCD guidelines on prevention and management, PubMed
- — Oesophageal strictures in cats associated with doxycycline therapy, PubMed
- — Esophageal lesions caused by orally administered drugs. An experimental study in the cat, PubMed
- — The effect of sucralfate tablets vs. suspension on oral doxycycline absorption in dogs, PubMed
- — Guia de Uso Racional de Antimicrobianos para Cães e Gatos, Ministério da Agricultura e Pecuária
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