Bulário
Dexmedetomidina
Nomes comerciais:Dexdomitor, Precedex
Agonista alfa-2 adrenérgico sedativo e analgésico para cães e gatos, usado em contenção química, procedimentos pouco a moderadamente dolorosos e como pré-medicação anestésica.
Posologia
Cães
| Via | Dose | Frequência | Indicação |
|---|---|---|---|
| 125 µg/m² | dose única | Sedação em associação com outros anestésicos ou analgésicos IM A dose canina é por superfície corporal, não por quilo. Jejum de várias horas antes reduz o vômito, efeito esperado dos agonistas alfa-2. IV A dose canina é por superfície corporal, não por quilo. Por via intravenosa, aplicar lentamente. | |
| 375 a 500 µg/m² | dose única | Sedação sem associação com outros anestésicos ou analgésicos IM Faixa mais alta porque o fármaco atua sozinho. Monitorar bradicardia e vasoconstrição periférica. IV Faixa mais alta porque o fármaco atua sozinho. Aplicar lentamente e monitorar frequência cardíaca. |
Gatos
| Via | Dose | Frequência | Indicação |
|---|---|---|---|
| 10 µg/kg | dose única | Sedação em associação com outros anestésicos ou analgésicos IM A dose felina é por quilo, ao contrário da canina, que é por superfície corporal. Jejum de várias horas antes reduz o vômito. IV A dose felina é por quilo, ao contrário da canina, que é por superfície corporal. Por via intravenosa, aplicar lentamente. | |
| 40 µg/kg | dose única | Sedação sem associação com outros anestésicos ou analgésicos IM Dose mais alta porque o fármaco atua sozinho. Monitorar bradicardia e vasoconstrição periférica. IV Dose mais alta porque o fármaco atua sozinho. Aplicar lentamente e monitorar frequência cardíaca. |
Fontes das doses: Consolidado da referência de mercado veterinário brasileira (bula Dexdomitor, Zoetis)
Produto controlado. Lista C1. Dexmedetomidina consta na Lista C1 da Anvisa, sujeita a Receita de Controle Especial em duas vias.
Calculadora de dose por peso
Confira sempre a bula do produto e o peso aferido. O cálculo apenas multiplica a dose publicada nesta página pelo peso informado — a decisão clínica é do médico-veterinário.
Apresentações no Brasil
Há um único produto veterinário registrado no Brasil com dexmedetomidina isolada: o Dexdomitor (Zoetis), solução injetável a 500 µg/mL em frasco de 10 mL.
Da medicina humana vem o Precedex, a 100 µg/mL em frasco-ampola de 2 mL, apresentado como solução concentrada para infusão — ou seja, diluir antes de usar, e a concentração final depende da diluição.
A diferença de concentração entre os dois é de cinco vezes. Conferir o rótulo do frasco antes de calcular não é zelo excessivo, é o que separa a sedação da parada.
Conservar em local seco, entre 15 °C e 30 °C, ao abrigo da luz solar direta.
A dexmedetomidina é absorvida pela pele humana íntegra: evite o contato e lave imediatamente em caso de exposição.
A lista completa, uma linha por apresentação, está no bloco de apresentações acima.
Indicações
A dexmedetomidina é indicada em cães e gatos para contenção química com sedação e analgesia em exames e procedimentos não invasivos ou pouco a moderadamente dolorosos, incluindo radiografias, procedimentos dentários menores, limpeza de orelhas, suturas, excisão de pequenos tumores e debridamento de feridas. Em cães, também é indicada como medicação pré-anestésica antes da indução e manutenção da anestesia geral. Em gatos, a bula consultada também a descreve como pré-medicação antes de anestesia geral, incluindo uso em protocolos com cetamina.
Na prática, trata-se de um fármaco útil quando é desejável reduzir estresse, facilitar manipulação e diminuir a necessidade de indutores e anestésicos inalatórios. A analgesia é dose-dependente e, isoladamente, pode não ser suficiente para dor pós-operatória de procedimentos moderadamente dolorosos; nesses casos, deve entrar como parte de analgesia multimodal.
Mecanismo de ação
A dexmedetomidina é o agonista alfa-2 adrenérgico farmacologicamente ativo do racemato medetomidina. Ao reduzir a liberação de norepinefrina no sistema nervoso central e na periferia, produz sedação, alguma analgesia e marcante efeito poupador de anestésicos.
Do ponto de vista hemodinâmico, o padrão esperado é vasoconstrição periférica inicial com aumento transitório da pressão arterial, seguida por retorno à normalidade ou valores mais baixos, enquanto a frequência cardíaca tende a cair. Esse perfil explica por que monitorização cardiovascular e respiratória não é opcional durante seu uso.
Contraindicações
Pelas fontes brasileiras consultadas, a dexmedetomidina não deve ser usada em cães e gatos com menos de 2 kg, nem em pacientes com doença cardiovascular, hipóxia, bradicardia ou hipotensão preexistentes. Também é contraindicada em distúrbios respiratórios, doença hepática ou renal, doenças sistêmicas severas, choque, debilidade importante, hipersensibilidade ao fármaco ou excipientes, além de prenhez, lactação e animais destinados à reprodução.
A bula também cita que a segurança não foi avaliada formalmente em animais idosos; portanto, o ponto prático não é “proibir geriátricos”, mas usar com cautela e monitorização intensiva de frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura e oxigenação.
Em felinos com doença renal crônica, a cautela deve ser redobrada ou o uso evitado quando houver alternativa mais segura. Isso é particularmente relevante porque os agonistas alfa-2 reduzem débito cardíaco e perfusão tecidual, e a dexmedetomidina depende de metabolismo hepático e eliminação renal de metabólitos. Em gatos idosos com IRC, o risco de bradicardia, hipotensão e hipoxemia clinicamente relevantes pode ser maior.
Efeitos adversos
Os efeitos adversos esperados decorrem da ação alfa-2: bradicardia, bradipneia, hipotermia, vasoconstrição periférica com mucosas pálidas ou discretamente cianóticas e alteração bifásica da pressão arterial. Vômito é frequente, tipicamente 5 a 10 minutos após a aplicação, mas também pode ocorrer na recuperação. Tremores musculares, diurese, hiperglicemia e excitação paradoxal também são descritos.
Em cães, podem ocorrer bradiarritmias e taquiarritmias, incluindo bradicardia sinusal profunda, bloqueio atrioventricular de primeiro e segundo graus, pausa ou parada sinusal; raramente, há relatos de bloqueio AV de terceiro grau e complexos supraventriculares ou ventriculares prematuros.
Em gatos, a associação sequencial com cetamina exige atenção especial. Foram descritos hipoventilação, apneia, hipoxemia, hipotermia, vômito, nervosismo, extrassístoles e bloqueio atrioventricular. A hipoxemia foi relatada como comum nos primeiros 15 minutos da anestesia com dexmedetomidina-cetamina.
Outro alerta importante em felinos é o edema pulmonar. Nas fontes consultadas, ele aparece como evento adverso grave documentado com agonistas alfa-2 em gatos e a bula brasileira alerta para edema pulmonar tardio. Como se trata de complicação potencialmente fatal, o tutor deve receber orientação explícita para procurar atendimento imediato se houver dispneia após a alta.
Interações medicamentosas
A dexmedetomidina potencializa-se com outros depressores do sistema nervoso central; por isso, a coadministração com sedativos, hipnóticos, indutores e anestésicos gerais exige ajuste de dose e monitorização mais estreita. Seu uso como pré-medicação reduz a necessidade de propofol, tiopental e anestésicos voláteis.
Anticolinérgicos devem ser usados com cautela. Em cães, a associação com butorfanol aprofunda sedação e analgesia, mas aumenta o risco de padrão respiratório irregular, hipoxemia, tremores, excitação, hipersalivação, êmese e recuperação prolongada.
Em gatos, a associação com cetamina modifica a exposição à dexmedetomidina e pode agravar eventos cardiorrespiratórios; com cetamina a 10 mg/kg há descrição de taquicardia. Se houver reversão, lembrar que o atipamezol antagoniza a dexmedetomidina, mas não a cetamina. Em cães, a reversão IM com atipamezol é rotina. Em gatos, embora haja dose de reversão descrita nas fontes consultadas, a recuperação deve ser acompanhada com monitorização intensiva, sobretudo quando houve uso concomitante de cetamina.
Observações clínicas
As unidades mudam entre as espécies e esse é o erro de cálculo mais fácil de cometer aqui. Cães são dosados por superfície corporal, em µg/m²: 125 µg/m² em associação com outros anestésicos ou analgésicos, e 375 a 500 µg/m² sem associação. Gatos são dosados por quilo, em µg/kg: 10 µg/kg em associação e 40 µg/kg sem associação. Trocar as unidades entre as duas espécies erra a dose por uma ordem de grandeza.
O jejum de várias horas antes da administração de agonistas alfa-2 é recomendado para reduzir a ocorrência de vômito.
Sobre o receituário, esta página segue a referência de mercado, que classifica a dexmedetomidina como Notificação de Receita A — o formulário amarelo numerado que o prescritor adquire junto à autoridade sanitária. Vale registrar que a RDC nº 12, de 30 de janeiro de 2006, remanejou a substância da lista B1 para a lista C1, e a C1 se dispensa em Receituário de Controle Especial, o formulário branco em duas vias. As duas leituras circulam; na dúvida, confirme com a farmácia antes de emitir. As doses em cães são baseadas em área de superfície corporal, não apenas em peso. Isso precisa ser traduzido em dose absoluta antes da prescrição. A fórmula prática mais usada para estimar área de superfície corporal canina é ASC (m²) = 10,1 × peso(kg)^(2/3) / 100. Exemplo: um cão de 20 kg tem ASC aproximada de 0,74 m². Assim, 375 mcg/m² correspondem a cerca de 278 mcg totais; na solução 0,5 mg/mL, isso equivale a aproximadamente 0,56 mL. Para 125 mcg/m², o mesmo cão receberia cerca de 93 mcg, ou 0,19 mL. Ainda assim, quando o peso do paciente cai dentro das faixas da tabela de bula, prefira seguir o volume tabelado do produto específico.
Em gatos, a dose de bula consultada é fixa em 40 mcg/kg IM tanto para sedação/analgesia quanto para pré-medicação. Como outras fontes internacionais citam faixas mais amplas conforme profundidade desejada, é importante deixar claro que esta monografia adota apenas a dose da bula brasileira efetivamente consultada.
Recomenda-se jejum alimentar de 12 horas e jejum hídrico de 2 horas antes da administração. Em cães, a aplicação IV deve ser lenta. Após a administração, manter o paciente em ambiente calmo por pelo menos 15 minutos; a sedação e a analgesia começam em 5 a 15 minutos, com pico em torno de 30 minutos. Durante todo o procedimento e recuperação, monitorar frequência cardíaca, padrão respiratório, temperatura e oxigenação. Em felinos, lubrificação ocular é prudente porque a redução do reflexo palpebral pode favorecer opacidade corneana reversível.
A dexmedetomidina é indicada apenas em dose única nas fontes brasileiras consultadas; a segurança de doses repetidas não foi avaliada nelas.
Fontes
- — Cloridrato de Dexmedetomidina (0,5 mg/mL), Zoetis Brasil
- — Dexdomitor | Zoetis BR, Zoetis Brasil
- — Lista de substâncias sujeitas a controle especial no Brasil, Anvisa
- — Resolução da Diretoria Colegiada - RDC nº 936, de 05/11/2024, Anvisa
- — Clinical particulars - Sedadex® 0.5 mg/ml Solution for Injection for Dogs and Cats, NOAH Compendium
- — Dosage and administration - Revertor 5 mg/ml Solution for Injection for Cats and Dogs, NOAH Compendium
- — GUIDELINES FOR RECOGNITION, ASSESSMENT AND TREATMENT OF PAIN, WSAVA
- — Adverse reactions of α2-adrenoceptor agonists in cats reported in 2003-2013 in Finland, PubMed
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